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Milei reaproxima-se da causa das Malvinas após pressão de Trump e onda nas redes

Presidente argentino anuncia sanções e retomada de base naval; analistas veem manobra política com pano de fundo geopolítico

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Milei reaproxima-se da causa das Malvinas após pressão de Trump e onda nas redes

Na noite da última quinta-feira, a imprensa argentina aguardou com grande expectativa o pronunciamento em cadeia nacional do presidente Javier Milei sobre as Ilhas Malvinas. Até as 21h, uma onda de especulações tomou conta do país, até que o chefe de Estado finalmente se manifestou.

A questão das Malvinas é um tema delicado para os argentinos, uma espécie de ferida aberta. Essa sensibilidade ficou evidente no recente jogo entre Argentina e Inglaterra pela Copa do Mundo, quando jogadores da seleção exibiram uma faixa com a frase "Las Malvinas son argentinas", apesar de saberem que poderiam ser punidos.

A Fifa multou a Associação de Futebol da Argentina em cerca de 321 mil dólares por entender que houve manifestação política em um evento esportivo. Na época, o próprio Milei havia criticado a atitude dos atletas, classificando a faixa como "populista", embora admitisse que a emoção dos jogadores era compreensível. O presidente também já havia dito no passado que os habitantes das ilhas, conhecidos como kelpers, optariam por ser argentinos caso a Argentina se tornasse uma grande potência econômica.

Menos de dois meses depois da partida contra os ingleses, e na mesma semana em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sinalizou que estava reavaliando a histórica neutralidade americana sobre o conflito entre Argentina e Reino Unido, Milei promoveu uma guinada radical em sua postura. Na Argentina, alguns já comparam o episódio ao que chamam de "último milagre de Messi", em referência ao anúncio recente da aposentadoria do craque da seleção após 20 anos.

A coincidência não é casual. Quando os estrategistas da Casa Rosada, em especial Santiago Caputo — considerado o cérebro por trás das principais iniciativas do governo — assistiram à entrevista de Trump à emissora britânica GB News, identificaram uma oportunidade estratégica.

Colaboradores do governo argentino garantiram à coluna que a fala de Milei não foi desvinculada das declarações anteriores do americano, nem tampouco da visita do mandatário ao Chile, realizada no mesmo dia. Quando questionado sobre a possibilidade de apoiar o Reino Unido em um eventual novo conflito pela soberania das Malvinas, Trump esquivou-se e mandou um recado a Londres: "Seu país não esteve lá para me ajudar". O chefe de Estado americano se referia à recusa britânica em participar das ofensivas conjuntas dos EUA e de Israel contra o Irã.

Também é verdade que o tema Malvinas já fazia parte da agenda do governo. Como admitiu o chanceler Pablo Quirno em entrevistas a rádios locais, esse tipo de iniciativa depende de "oportunidade e condições". Quirno negou conversas prévias com os Estados Unidos e afirmou que os anúncios de Milei — entre os quais se destacam sanções a empresas que explorem petróleo na região e a retomada da construção de uma base naval na Terra do Fogo — vinham sendo analisados havia meses.

Embora a questão estivesse em estudo, a janela se abriu depois que Trump se pronunciou. As declarações do presidente americano permitiram ao governo argentino voltar a ocupar o centro da agenda nacional com um tema que une a grande maioria da população.

O governo Milei acompanha de perto as redes sociais e sabia que, após o episódio da partida contra a Inglaterra, houve uma forte onda nacionalista em torno das Malvinas. Isso obrigou o presidente — admirador declarado da britânica Margaret Thatcher e do ex-ditador chileno Augusto Pinochet, que colaborou com o Reino Unido na guerra de 1982 — a recuar e se alinhar ao clima do momento.

O discurso oficial agora sustenta que o país pode destinar recursos à base da Terra do Fogo — cuja obra estava praticamente paralisada desde a chegada de Milei ao poder — sem comprometer o equilíbrio fiscal. Segundo o chanceler, a Terra do Fogo é um ponto estratégico do Atlântico Sul e a Argentina pretende valorizar seus ativos na região.

Se os Estados Unidos, que fontes locais garantem não injetarão recursos na base num primeiro momento, virão a se beneficiar dos ativos militares argentinos, é uma questão que permanece em aberto.

Em queda nas pesquisas e vivendo, para alguns, seu pior momento de popularidade, Milei conseguiu voltar ao centro do cenário ao levantar uma causa nacional — o clássico manual da política. Mas não se pode reduzir a isso: há elementos de geopolítica envolvidos, num contexto em que Trump já demonstrou estar disposto a tudo, como mostrou ao bombardear a Venezuela em janeiro e ao fechar acordo para ter participação no petróleo venezuelano.

Milei, já em campanha por um segundo mandato em 2027, aposta na velha tática de mobilização em torno de uma causa pátria em um mundo cada vez mais complexo e incerto. Em Brasília, assessores do presidente Lula acompanham o assunto, ainda sem entrar em estado de alerta.

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