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Cirurgia robótica conecta Brasil e China a 19 mil km de distância em procedimento histórico

Pastor de Foz do Iguaçu foi operado por médico brasileiro em Chengdu usando conexão 5G e robô chinês; equipe aguarda reconhecimento do Guinness

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Cirurgia robótica conecta Brasil e China a 19 mil km de distância em procedimento histórico

O que começou como uma consulta por causa de um gosto persistente na boca levou o pastor adventista Sávio Lúcio dos Santos, de 49 anos, ao diagnóstico de refluxo e hérnia de hiato em Foz do Iguaçu, no Paraná. O cirurgião Luiz Carlos Bremm indicou uma operação considerada simples, com duração prevista de 40 minutos. Mas o procedimento acabou se tornando um marco mundial.

Santos aceitou a proposta de realizar a intervenção robótica pelo plano de saúde, com transmissão ao vivo para um congresso na China. No dia 20 de março, ele entrou na sala de cirurgia para ser operado por Carlos Eduardo Domene, médico brasileiro que comandava o robô diretamente de Chengdu, a cerca de 19 mil quilômetros de distância. "Só às vésperas foi que percebi que o cirurgião também estaria lá", contou o pastor.

O tempo de operação acabou ultrapassando o previsto, em parte por conta do atraso no sinal de internet. Bremm, que estava na sala junto com sua equipe para garantir a segurança do paciente, explicou que o delay chegou a ser quase o dobro do recomendado para telecirurgias. "Não houve nenhum tipo de intervenção nossa, a não ser fazer a 'docagem', ou seja, colocar o robô na posição e conectar os braços nas pinças. Foi maravilhoso. Começamos a chorar", relatou.

Santos recebeu alta dois dias depois e se recupera bem. O equipamento utilizado foi o Toumai, fabricado pela chinesa MicroPort, já presente em mais de 50 hospitais da América Latina. O Brasil foi o segundo país do mundo a aprovar o uso do aparelho, em 2024, e a liberação para cirurgia remota veio no ano seguinte. A empresa mantém um centro de telecirurgia no Hospital de Amor, em Barretos (SP).

Joey Liu, diretor de marketing da MicroPort em Xangai, classificou o feito como recorde mundial em cirurgia telerobótica, o mais distante já realizado, e aguarda a confirmação pelo Guinness Book. Para viabilizar a operação, foi usada uma conexão 5G móvel, escolhida após testes nos três dias anteriores, quando o atraso chegou a 380 milissegundos — bem acima do limite considerado seguro pela medicina, de 200 milissegundos.

Domene, professor da Faculdade de Medicina da USP, comandou o robô a partir do hospital da Universidade de Sichuan, acompanhado por um engenheiro e funcionários da MicroPort. Sedado, Santos não viu o cirurgião. Para o médico, o grande marco foi operar via sinal de celular, sem a necessidade de cabos dedicados de altíssimo custo.

Em outra sala, o médico Abdurashid Abdukarimov se preparava para realizar no dia seguinte uma telecirurgia rumo a Tashkent, capital do Uzbequistão, usando robôs de outra fabricante chinesa, a Edge, principal concorrente da MicroPort. A empresa já soma mais de dez unidades estimadas na América Latina, a maioria no Brasil.

A primeira cirurgia remota da história foi realizada pelo francês Jacques Marescaux, da Universidade de Estrasburgo, que em 2001 operou uma paciente a partir de Nova York. Na China, o pioneirismo ficou por conta de Liu Rong, do Hospital Geral do Exército de Libertação Popular, responsável pela primeira telecirurgia 5G do país.

No Brasil, a telecirurgia robótica é regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) por meio da resolução nº 2.311, de 2022. A norma exige infraestrutura segura, banda de comunicação redundante, estabilidade de energia e proteção cibernética, além da presença de cirurgião remoto, cirurgião presencial e auxiliar. O médico presencial precisa estar apto a assumir o procedimento em caso de emergência, falha no robô ou queda de conexão.

A reportagem do UOL também acompanhou uma segunda operação remota, feita a partir de Wuhan com uma paciente em Porto Alegre. O cirurgião-geral Norberto Martins enfrentou momentos de tensão devido à instabilidade da rede e precisou reduzir o ritmo da operação para não comprometer a segurança da paciente.

Domene avalia que ainda não se sabe ao certo "se a tecnologia será usada para fins humanitários ou pedagógicos", mas destaca que o ganho está em permitir que um bom especialista opere "um paciente que está numa região remota e que não teria acesso à cirurgia de outra forma". Médicos entusiastas apontam que os avanços chineses, impulsionados por investimentos estatais em inteligência artificial, buscam baratear o acesso à saúde e democratizar procedimentos especializados.

Outra fronteira do setor é o aprimoramento do feedback háptico, tecnologia que permite ao cirurgião sentir, no console, a pressão e a densidade dos tecidos operados a milhares de quilômetros. A próxima telecirurgia entre os dois países, ainda sem data definida, inverterá os papéis: será realizada a partir do Brasil por um médico chinês.

No país, outro avanço recente aconteceu em 30 de junho, quando um paciente em Porto Velho foi operado pela primeira vez pelo SUS a partir do Hospital de Amor, em Barretos. O cirurgião Luís Romagnolo, diretor de inovação do hospital, explicou que o maior entrave para telecirurgias de alta conectividade no Brasil é a falta de fibra óptica em algumas regiões, problema que foi contornado com a criação da Rede de Conectividade Saúde Brasil de Alta Performance e Segurança, fruto de parceria entre os ministérios da Saúde e das Comunicações.

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